06/12/2016

O monumento aos Pracinhas (que o Niemeyer não fez)

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O monumento aos Pracinhas (que o Niemeyer não fez)
*Dulce Rosa Rocque


Em meados de 1976, em Bolonha, Itália, foi realizado um seminário sobre as ditaduras na América Latina. Éramos quatro os representantes do Brasil em tal ocasião: Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, Ivan Ribeiro e eu, então conhecida como Marzia Cioni.

Em um intervalo das intervenções do primeiro dia, fomos procurados pelo dr. Arnoaldo Berti, advogado italiano herdeiro da propriedade situada em Monte Castelo, a qual hospedou os pracinhas brasileiros durante a Segunda Guerra Mundial. Na sua casa situada naquela montanha dos Apeninos, foi montada a base para as batalhas e ataques aos alemães que se encontravam no entorno.

Praticamente era a frente de batalha dos brasileiros.

Durante sua apresentação a nós quatro e após esse preâmbulo, ele simplesmente nos ofereceu o terreno pertencente à sua família naquele local, para fazermos um monumento para os Pracinhas que tinham ido parar ali, defendendo a Itália dos nazistas. Perguntamos por que não a oferecia à embaixada brasileira e ele respondeu que já o tinha feito e que haviam refutado a proposta.

De fato, disse: “Procurei vocês não somente porque são de esquerda, mas também porque eles não aceitaram, então pensei que ‘se as instituições não aceitam, eu a ofereço ao povo’. Ainda sem crer no que estávamos vivenciando e orgulhosos de tal oferta, ouvimos suas condições: queria que o monumento fosse feito por Oscar Niemeyer e que contivesse a frase “per i brasiliani morti difendendo l’Italia dal fascismo e ai brasiliani che oggi muoiono sotto una dittatura fascista”. Ou seja: Para os brasileiros mortos defendendo a Itália do fascismo e aos brasileiros que hoje morrem sob uma ditadura fascista”.

E isso nos deixou mais emocionados ainda. E foi esta frase a causa da recusa da Embaixada brasileira. Eu fiquei responsável pelo andamento das tratativas com Niemeyer, por meio de Luiz Carlos Prestes, então secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, exilado em Moscou.

Primeiro ato: a tradução da carta que Arnoaldo Berti escreveu para Prestes, na qual, além de oferecer o terreno, contava historias dos Pracinhas. Não demorou muito tempo e Prestes me avisou que já entrara em contato com Niemeyer e que brevemente um enviado seu nos procuraria.

Mais alguns dias se passaram e recebi a visita do companheiro arquiteto responsavel pelas obras de Niemeyer na Argélia, Marcos Jaimovitch, e, juntos com Bertti, partimos para Porreta Terme, na província de Bolonha, onde paramos para tomar um café. Berti aproveitou para nos mostrar onde, uma vez por mês, os brasileiros desciam para ali tomar banho…

Visitamos rapidamente o local e nos juntamos a quem nos acompanharia até Monte Castello. Subimos mais um pouco a montanha e chegamos ao local da casa “dos pracinhas”: Guanella se chamava. Numa área muito acidentada, uma pequena casa típica da montanha dos Apeninos,
sobrepujava um vale, lá embaixo. O arquiteto tinha que ver como era o terreno e mandar a Niemeyer as informações necessárias para que ele pudesse fazer o projeto. E assim foi feito.

Passa mais algum tempo e recebemos a notícia que Niemeyer viria à Europa para inaugurar a sede do Partido Comunista Francês, em Paris, e a sede da Mondadori, na Itália. Aproveitaria a ocasião e viria até Bolonha para visitar Monte Castello. A euforia de Berti e a minha eram indescritíveis. O PCI começava a preparar a recepção para sua chegada, inclusive querendo saber como era a bandeira do Partido Comunista Brasileiro, para mandar confeccionar algumas para dar às crianças que o saudariam. Um carro iria me pegar e levar ao aeroporto. Eu já estava pronta quando chegou a notícia que o avião francês tinha partido sem ele, pois se lembrara, já no aeroporto, que não gostava de viagem aérea.

Foi muito grande nossa decepção e tristeza. Mais um ano se passou. Começávamos a ver o resultado das nossas lutas contra a ditadura. Já no final de 1979, Prestes voltou ao Brasil. Com a derrota da ditadura, eu também pude voltar ao Brasil, depois de dez anos de ausência. Aproveitei a oportunidade e fui visitar Prestes. Entre os temas da conversa, não poderia faltar evidentemente o monumento aos Pracinhas na Itália e ele me confirmou o interesse e disponibilidade de Niemeyer, a respeito do assunto.

Dois anos depois, novamente de férias na Cidade Maravilhosa, fui com Givaldo Siqueira a um seminário no Centro do Rio e encontramos Niemeyer. É logico que abordei o assunto e ele me disse que, para desenhar o monumento, precisava ver melhor o terreno, pois as informações dadas pelo arquiteto não foram suficientes. Além do que, precisava ver as fotografias aéreas, também, pois o terreno parecia ser bem irregular – e de fato o era.

Nós o deixamos, com a certeza de que um desses dias à frente receberíamos o projeto na Itália. Voltei para Bolonha e relatei tudo a Berti, que tomou as providências cabíveis e eu não me preocupei mais com aquilo. Naquela província italiana já existia, além do francês Le Corbusier, uma obra do finlandês Alvar Aalto e outra do japonês Kenzo Tange. Niemeyer iria completar o quarteto dos melhores arquitetos dos anos 70 – outro sonho de Arnoaldo Berti, o herdeiro da Guanella.

Muitos anos depois, já em fevereiro de 1999, foi colocada a pedra fundamental de um monumento aos Pracinhas em Monte Castello. O projeto, porém, era de uma arquiteta brasileira, Mary Vieira. O medo de viajar de avião foi o principal motivo que impediu Niemeyer de realizar a obra.

PS: Décadas depois, tive a satisfação e a alegria de ver o documentário que a minha filha, Ana Marília, dedicou aos brasileiros que lutaram em Monte Castelo. O filme se intitula “O filo brasiliano. A luta contra o fascismo não tem fronteiras”.

05/12/2016

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